REALIDADE AUMENTADA?

Olá, bom dia a todos os que acompanham nosso blog!

“Trecho do filme Matrix, onde o personagem Neo tem a oportunidade de fazer a escolha entre duas pílulas… e continuar acreditando no que quiser ou conhecer a verdade.”

Hoje trarei um questionamento a um determinado produto, mas não com o intuito de diminuí-lo e às suas possíveis aplicações, sua importância na mídia ou seja lá o que for que ele puder trazer de benefícios aos fotógrafos, além do que esta crítica se estende a uma enorme quantidade de produtos e serviços na fotografia, mas sim trazer uma reflexão às reais necessidades e importâncias das coisas. É mais um passo em direção ao que o Fotograficamente Falando se propõe, que é trazer a discussão, a reflexão e o questionamento a cerca da fotografia e tudo mais que se relaciona com ela, seja direta ou indiretamente, como acredito ser este o caso.

Vamos então apresentar o produto. É uma tecnologia que vem, provavelmente, substituir o QR Code (pra quem não sabe o que é QR Code, seja interessado e procure mais informações na internet). Trata-se da AR (Augmented Reality), conhecida aqui como Realidade Aumentada. Uma tecnologia virtual (software) disponibilizada pela http://www.ludiclight.com/, uma empresa da fotógrafa Patrícia Prado. Ela tem um vídeo, feito para o site “eduk”, apresentando a Realidade Aumentada onde você pode conferir melhor do que se trata, a proposta e até como entrar em contato e adquirir o produto/serviço.

Então, antes de continuar a leitura, sugiro que faça uma visita a esses links, conheça o produto e tenha informações para entender o questionamento a seguir.

Vamos lá!

Esta ferramenta “virtual” é o último recurso tecnológico no que se refere a interpretação de imagens/links, através de um dispositivo que tenha câmera (como celulares smartphones e tablets) para fazer a leitura da imagem, a qual direciona informações adicionais vinculadas à informação primeira, apresentada em algum material físico “real”, onde possa ser feita a leitura da imagem.

Bom, aqui já temos praticamente o questionamento explícito do que quero tratar aqui. É uma ferramenta “virtual” que utiliza algo “real” para te levar para algo “virtual” e que é chamada de “realidade aumentada”, onde, na verdade, a meu ver, acontece uma “diminuição da realidade” e um, por consequência óbvia, “aumento da virtualidade”.

Relembremos um pouco a história da fotografia quando nossos mestres (os primeiros fotógrafos) tinham que descobrir, desvendar, estudar e praticar exaustivamente a fotografia para que pudessem fazer o que fizeram e que hoje é admirado por todos os fotógrafos, as fotografias. Fotografias que até hoje, em minhas aulas, eu proponho para que os alunos as reproduzam e que praticamente ninguém dá conta. Retratos feitos na metade do século XVIII, com caixotes e placas embebidas em produtos de difícil manipulação, sensíveis, que exigiam um procedimento meticuloso para serem produzidos, que exigia um tempo enorme de produção e revelação para se conhecer o resultado e técnicas de fotografia que eram dificílimas de serem executadas visto que as fotografias levavam entre 15 e 20 segundos de exposição (no começo) para serem feitas. E vejam só o que esse pessoal conseguiu produzir!

Isso quer dizer que eles realmente eram gênios? Acredito que não. Acredito apenas que eram pessoas apaixonadas, interessadas, que simplesmente se propunham a gastar seu tempo investindo no que acreditavam e no que se propunham a fazer, fazendo. Além de tudo relacionado à fotografia, o que já era muito difícil, eles ainda tinham que conseguir quem fosse fotografado (os modelos, clientes, etc) e não possuíam os recursos que temos hoje, como a internet e o telefone. Não se locomoviam com facilidade para atender clientes distantes. Era tudo mais difícil, e fizeram tudo aquilo que admiramos hoje.

Acredito que o problema esteja na gente, hoje, nos dias de hoje. Onde foi parar o interesse na fotografia? Onde foi parar a energia que tinham antigamente em tentar, tentar, tentar e tentar exaustivamente até que se conseguisse atingir o objetivo? Onde foi parar o compromisso? O respeito? Onde foi parar a essência dos fotógrafos de hoje? A consciência a cerca do que é fotografia e do que se propõe a mesma?

Bom, não foi parar em lugar nenhum. Ela está aí, com você que se apaixonou pela fotografia! Ela está ai dentro de você mesmo, que passou algum tempo tendo contato com algum fotógrafo, ou trabalhou em algum estúdio e aprendeu e decidiu começar a trabalhar na área também!

O mundo é cheio de distrações e a cada dia, a cada hora, ou a cada minuto, surge algo novo, alguma coisa que aparece como sendo algo moderno, revolucionário, novo, mas que na verdade não passa de distrações que não nos levam a absolutamente lugar nenhum em relação a nada no que diz respeito a nossa “vida real”, seja particular ou na fotografia, no trabalho, nos relacionamentos sociais ou amorosos. É um template novo para apresentar aquele velho e medíocre conteúdo que você já possui. Um jeito novo de se “des”conectar das pessoas na “realidade” e se iludir com a “virtualidade” de um relacionamento pessoal ou profissional. É um curso, um DVD que te entrega, por alguns míseros reais, uma receita pronta e mastigada de como fazer, de como conseguir, de como chegar lá. Mas dificilmente terá acesso a algum tipo de material, recurso ou ferramenta que te faça se questionar. Que te dê possibilidades a partir da sua realidade já existente. Que te levará ao próximo nível de crescimento na fotografia ou na vida. Pois para que isso aconteça, para que algo lhe sirva ajustado à sua vida ou realidade, não pode ser produzido em massa e deve ser personalizado à você, levando em consideração uma gama de características e informações que te tornarão diferente de todos os outros.

São os prós e os contras na transmissão massificada de informações, ainda mais quando as mesmas visam algum tipo de lucro, ai tudo é válido, inclusive a enganação, a trapaça e a manipulação. Então, quer dizer que hoje em dia nada presta? Nada é autêntico ou realmente instrutivo? Que nada te serve e que nada irá realmente te ajudar?

Veja, não disse isso em momento algum, porém, é preciso ter um olhar mais crítico, analisar melhor os conteúdos e os valores reais das coisas que aparecem na nossa vida para que possamos decidir melhor no que investir ou não, no que gastar nosso tempo, no que se propor a fazer. É claro que há materiais, recursos e tecnologias que serão fundamentais e te darão incríveis possibilidades de expandir sua consciência a cerca não somente da fotografia, mas da sua vida de um modo geral (trabalho, relacionamento, diversão, etc). Cabe a você fazer essa reflexão e decidir o que realmente é importante para você, neste momento, de acordo com a sua realidade e que te auxiliará nos caminhos os quais você quer percorrer.

Esta “Realidade Aumentada” que aparece para nós hoje, em forma de uma nova possibilidade (e de certa forma o é) nada mais é do que mais uma ferramenta que pode (ou não) te auxiliar, incrementar seu trabalho, resolver algum tipo de necessidade que por ventura venha a ter a sua fotografia. Mas cuidado com a forma com que ela se apresenta para vocês e reflitam mais sobre a “real necessidade”, não somente deste produto mas de todos os outros, na sua vida, na sua fotografia.

Como já disse, achei até interessante sim e acredito que deva servir para vários profissionais sim. Não é o meu caso e também acredito não ser o caso de uma grande parte dos fotógrafos, porém, sei também que uma grande parte dos fotógrafos comprará a idéia acreditando que ela resolverá algum tipo de problema na sua fotografia, mas que na verdade ele só poderá ser resolvido ao passo que você se torne a cada dia mais “fotógrafo”, que você mergulhe de cabeça nesta atividade, seja como hobby ou profissão. E a fotografia tem muito, mas muito menos a ver com cursos e equipamentos do que vocês imaginam. Fotografia é arte e relacionamento. Os equipamentos e as técnicas são os últimos recursos a serem utilizados para se produzir uma fotografia, mas hoje em dia, fazem parecer que sejam os mais importantes, os essenciais, que sem eles você não produzirá nada de bom. É uma câmera nova, uma lente x, um modificador de luz, uma técnica y… e quando você percebe sua fotografia continua medíocre como era antes. Talvez mais bonitinha ou apresentável, mas ainda assim, medíocre, pois você não evoluiu sua fotografia… somente adquiriu novos “brinquedos” para te distrair.

De certa forma, o que mais me entristece e me faz questionar algumas coisas é o descaso e o oportunismo criado em cima de determinadas expressões, palavras, necessidades, que passam longe de propor algo que tenha realmente a ver com seu nome ou significado. Sempre critiquei o uso da palavra “CRIATIVO(A)” em alguns materiais e cursos e vez ou outra sou mal interpretado em relação a isso. Quer dizer que uma técnica nova de iluminação não pode trazer criatividade para a minha fotografia Reges? Pode! Mas trará? Veja, se é uma técnica, logo, não pode ser criativa, pois já foi fechada em uma teoria, um método de execução, um esquema, e esquemas não são criativos, são esquematizados. A criatividade mora dentro de você, vem de quem executa e não do que há de fora. Portanto, um curso de “LUZ CRIATIVA”, ou qualquer outra coisa que seja, deveria trabalhar a criatividade “dentro de você” e pelo que eu tenho visto esta é a única coisa que nenhum deles se propõe a fazer. Isso porque o processo criativo leva tempo para ser trabalhado em uma pessoa, tem muito mais a ver com autoconhecimento, mudança de padrões, pensamento crítico e quebra de paradigmas do que com técnicas. Além do que, é um tipo de coaching que não pode oferecer garantias de bons resultados, visto que o processo criativo se dá pela pessoa, ou seja, dependerá dela saber utilizar as informações para expor sua criatividade ou não. Como vender algo assim? Difícil né! Então, utilizam indiscriminadamente o termo, que é fascinante, empolgante e dá uma impressão de que ele resolverá o problema da sua “falta de criatividade”, quando na verdade está te restringindo ainda mais, te colocando dentro de uma caixinha, te distraindo com algum resultado relativamente diferente, o que não quer dizer que seja criativo, até porque você recebeu ele e algo que se diz criativo deve, obviamente, ter sido “criado” por você.

Assim, mais uma vez, um produto novo surge. A “REALIDADE AUMENTADA”, onde a meu ver não faz nada a menos do que diminuir ainda mais a realidade existente. Se antes você tinha uma garrafa de vidro cheia de leite, sem marca, sem informação nenhuma, deixada na porta de sua casa pelo leiteiro, com o único intuito de que você simplesmente ingerisse tal produto por se tratar de algo necessário para você, hoje temos uma caixinha de leite que trás todas as informações nutricionais na embalagem (o que não garante nada, pois até formol foi encontrado em alguns lotes de leite esses tempos atrás, um produto cancerígeno e altamente perigoso para o consumo), com imagens belíssimas para “estimular” o seu consumo (uma vaquinha feliz, um campo verde ou uma moça bonita se deliciando com o tal produto), e como se não bastasse, agora você pode, além disso tudo, ver um vídeo que mostra o processo produtivo de tal produto (pelo menos aquele vídeo que foi contratado para ser feito, com uma equipe maravilhosa de filmagem cinematográfica, num dia lindo, com vaquinhas felizes e pessoas saudáveis e animadas, geralmente uma “realidade” completamente diferente da que nós sabemos que existe neste processo). Isso tudo pode acontecer, agora, enquanto você deveria, simplesmente, estar tomando o seu leite. Se concentrando na atividade mais importante do começo do seu dia. Olhar o alimento, sentir seu cheiro, sentir seu gosto com calma, prestar atenção na quantidade que está ingerindo e gastando o pouco tempo que sabemos que temos na qualidade desta atividade de se alimentar adequadamente, com calma, mastigando devagar, conversando com os familiares, ou cônjuge, ou filhos, numa mesa de café da manhã ou até no balcão da lanchonete, da padaria.

NÃO! Não veja mais nada quando ver a capa desta revista ou dessa embalagem! Use a “realidade aumentada” e seja sequestrado para um “mundo virtual”, repleto de conteúdos especialmente produzidos para te manter feliz, aqui, no cativeiro, gastando o seu tempo somente comigo, com minhas informações, com meus produtos, com minhas soluções e minhas ideologias. E esqueça de viver este momento de apreciação para receber mais uma carga de informações que não fazem parte da sua realidade e te colocam ainda mais a mercê de um condicionamento.

Tudo bem que esta crítica, esse questionamento, possa ser rebatido com a afirmação de que “é óbvio” que se trata de um aparato tecnológico de divulgação, de mídia virtual, que se propõe a trazer até a pessoa interessada os assuntos e informações referentes a tal conteúdo, podendo facilitar o acesso a várias outras informações pertinentes ao assunto procurado, e na verdade eu até acho que é isso mesmo que isso faz. Porém, depois de utilizarem o termo REALIDADE AUMENTADA e confundirem tudo, fica fácil dizer que é isso. O fato é que o termo REALIDADE está sendo empregado de forma equivocada, diria até manipuladora, pois sabem que a FALTA de realidade na vida das pessoas está se tornando cada vez mais constante e conseguir que elas comprem a idéia de “aumentarem sua realidade” através da “virtualidade” é o pulo do gato. Certamente será uma distração incrível durante algum tempo, mas que seu fim já é esperado, pois não se baseia em algo coerente e concreto. Mas até lá, quantos terão investido e se distraído com a idéia, quando poderiam ter investido e se concentrado em coisas que realmente fossem importantes para a sua fotografia?

O questionamento foi feito. Não quero deixar, chegando ao final deste texto, que sou contra nem a favor de tal produto, nem de tal técnica ou curso comercializados física ou virtualmente. Sei que elas vão continuar e estarão ai, jogadas sem nenhum cuidado, mas cabe a você, que se dispôs a repensar valores, a acreditar na fotografia como ela simplesmente é, que a cada dia tenta mais e mais perder o medo do novo, abraçando novas possibilidades “REAIS” de um relacionamento maravilhoso, não só com a fotografia, mas com tudo em sua vida, cabe a você ser mais reflexivo, pensar e analisar melhor tudo que lhe é jogado indiscriminadamente e em grandes quantidades, diariamente, através da televisão, da internet, das embalagens, dos cursos, e decidir melhor o rumo que deseja que sua fotografia tome. Você é o responsável pelo crescimento de sua fotografia. Se você terá sucesso ou não, é muito relativo, dependerá de muitas outras coisas e ninguém pode lhe garantir isso. Cuidado com quem tenta lhe vender a receita do sucesso, pois geralmente ali está a receita de algo que poderá, inclusive, te afastar ainda mais daquilo que se propôs a fazer e que desejou adquirir.

Que a sua “REALIDADE” seja realmente “AUMENTADA” através de suas ações, partindo de você e não do que lhe é oferecido pelo mundo externo. Que ela se expanda e entre em contato com todos à sua volta. Que sua fotografia seja cada vez mais consciente e essencial. São os meus sinceros votos a você, colega fotógrafo.

Tenham um bom dia!!!

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